Elizabeth Polity

“Vivemos num tempo atônito que ao debruçar-se sobre si próprio descobre que seus pés são um cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca vir a ser.” (SANTOS, Boaventura, 1997, p.5)

Desde os primórdios, os homens se pré- ocupam com o conhecimento: da natureza, do ser humano, dos objetos, das idéias, dos conceitos e do próprio conhecimento. Como ele se dá? De que forma conhecemos? O que conhecemos? O que não conhecemos?
A filosofia, como ciência primeira, procurou através da razão explicar o mundo que nos cerca – constituindo um ramo denominado ontologia. A investigação a respeito da natureza do conhecimento vem a se constituir na epistemologia, e o desenvolvimento de ambas ao longo do tempo – e de todas as questões a elas subordinadas – constitui o curso principal da história da filosofia. Para ela correm todos os afluentes importantes como: a moral, a política, a estética, a filosofia da religião.
A filosofia distingui-se da ciência, da arte e da religião, mas não entra em conflito com elas. Na verdade, ao estudarmos filosofia poderemos perceber que a ciência(ou as ciências) foi gerada no seio da filosofia. Filosofia, ciência e arte exploram o mesmo mundo. As três enfrentam o mistério da existência do mundo e de nossa existência, tentando obter um maior entendimento dele. Contudo, usam métodos diferentes e seguem caminhos próprios. E nesses caminhos buscam explorar o conhecimento, trazendo à luz o que está oculto e organizando seus achados de maneira articulada.
Bendita filosofia, mãe de todas as ciências, que como uma árvore frondosa abriga em seus múltiplos galhos, os ramos do saber. Sua sombra reflete as pulsões epistemofílicas dos homens e seus frutos, de várias cores e sabores, contemplam os mais diversos interesses do conhecimento humano.

Introdução

Este artigo tem como objetivo estudar como se processa o conhecimento – a epistemologia – nos tempos em que vivemos e, que segundo alguns autores pode ser chamado de pós-modernidade.
Eu penso que o trabalho acadêmico, de um modo geral, está calcado no interesse e no desejo de quem o faz. Com este, não é diferente. Ao buscar conhecer as epistemologias da/na pós-modernidade eu respondo a um interesse pessoal: como terapeuta familiar de orientação sistêmica, minha formação encontra-se calcada em dois eixos epistemológicos – o Construtivismo e o Construcionismo Social – que fornecem as bases paradigmáticas para esta prática clínica.
Neste final de século,observamos perplexos as múltiplas transições e mudanças às quais fomos submetidos, seja na ciência, seja na arte, seja na vida social. Como não poderia ser diferente, muitas questões de ordem epistemológica impõem-se neste momento, levando-nos a rever os antigo paradigmas da ciência tradicional.
Como já mencionei anteriormente, segundo alguns autores, vivemos num contexto social-histórico caracterizado pela pós-modernidade. Neste contexto estão presentes o conhecimento e o conhecimento do conhecimento: a epistemologia. Mas, como definir a pós-modernidade e como focalizar a epistemologia neste novo paradigma?
Para responder a estas questões valer-me-ei das palavras de FAVARETTO (in MARTINELLI – org., 1995, p. 29):

“O saber pós-moderno aguça nossa sensibilidade para as diferenças reforça nossa capacidade de suportar o incomensurável, que tantalizam a experiência contemporânea, aparecendo na problematização da história, na teoria, na cultura na arte, através de expressões que são verdadeiras personagens conceituais: indeterminado, heterogeneidade, hibridismo, deslegitimação, desenraizamento, etc.. Todas indica, pretendem significar, o processo de fuga do consensual, a dificuldade de unificar e totalizar, valorizando descontinuidades, desterritorialização, descentramento: multiplicidade”. Prossegue o autor: “A incidência dessas transformações no saber, especialmente as provocadas pela tecnociência e pelas redes de comunicação, corresponde ao desgaste das limitações tradicionais de áreas de conhecimento e da cultura e à perda da unidade de experiência. Na situação pós-moderna, o saber deixa de ser magnetizado por uma Idéia; desenvolve-se por uma dinâmica interna assimilando o acaso e através de novas mediações, transforma-se muitas vezes em instrumento de circulação mercantil e poder. A multiplicidade valoriza o que se passa “entre”, o que se elabora não na continuidade e totalidade (isto é, segundo um ponto de vista) mas na transversal, na associação de signos heteróclitos. Mas isto não implica simples elogio da fragmentação, pois esta pode estar postulando uma realidade já existente (que se apresenta fragmentariamente) ou um conjunto ainda por vir – o que se retira a violência dos fragmentos e suas relações, que são inteiramente diferentes e irredutíveis à unidade. (IDEM, p.31)

Ir em busca de um conhecimento é favorecer a descoberta das relações entre os signos. Tolerar o desconhecido é poder reconhecer nos acontecimentos “ não exatamente o que acontece, mas alguma coisa no que acontece”, construindo o saber como espaço de encontro. (DELEUZE, 1988, p. 54) Segundo FAVARETTO, esta concepção de conhecimento é o que constitui o campo da experiência contemporânea. (IDEM, p. 33)
Este autor faz menção ao que ocorre no campo do conhecimento, afirmando que “apesar de toda a grande experiência em curso, … [o saber] resiste por sua pretensão totalizadora, a tomar estas experimentações como sua própria realidade, pois está sempre em busca de grandes discursos de legitimação, ou seja, de fundamentação e organização unitárias. Não seria porque a idéia de conhecimento mantém vínculos profundos com a idéia de natureza homegênea?” (IDEM, p.34)
Tentando estabelecer uma comparação entre o Modernismo e a Pós-modernidade, poder-se-ia afirmar que o modernismo pode ser considerado como uma tradição filosófica ocidental, que colocando o ser humano como centro e dominador do universo, estende os conceitos cartesianos de objetividade, certeza, verdade, dualismo e hierarquia até o nosso século (ANDERSON, 1997).
A ideologia da representação, que segundo Ibañez (IBAÑEZ, 1992), caracteriza a Modernidade, apóia-se em quatro mitos: o do conhecimento válido como representação confiável do mundo; o do objeto como constitutivo deste mundo; o da realidade independente do observador; e o mito da verdade como critério decisório.
Dentro desta visão, o objetivo básico é o de buscar o conhecimento fundamental, de um mundo objetivo que existe independentemente de um sujeito cognoscente. Por se tratar de um conhecimento cumulativo, observável, verificável e universal o discurso filosófico da modernidade é do tipo que se apóia num valor de verdade e estabilidade.
Subjacente ao pensamento moderno está a crença num progresso indefinido e linear que, gradativamente alcançado permitiria às pessoas serem boas e felizes (VILLEGAS, 1992).
O sujeito cognoscente pode ser caracterizado, dentro desta tradição, como um ser cognitivo, cuja mente, como uma espécie de computador, reflete a realidade imago mentis, como se fosse um espelho, através de suas acuradas representações mentais de um mundo externo, real, empírico, objetivo e independente (ANDERSON, 1997).
A tradição desse pensamento apóia-se no dualismo sujeito – objeto, tendo o primeiro uma posição privilegiada de acesso a uma realidade como contexto de validação de todo conhecimento a partir de uma espécie de forum dos fatos. (IBAÑEZ, 1992)
O discurso filosófico da modernidade ressalta o caráter desvelador de um sujeito que descobre verdades universais, que podem ser expressas em leis gerais e descontextualizadas.
Essa posição começou a ser abalada no final do século XVIII, quando Kant propôs que a experiência é medida por categorias, não sendo portanto uma representação transparente da realidade. Com sua Crítica à Razão Pura, Kant (KANT, 1974, orig. 1787) considerou a mente não como mero receptáculo das impressões da natureza, mas como criadora de significados.
Diferentemente dos empiristas, seus predecessores, que consideravam que os objetos se impunham por si mesmos ao entendimento, Kant postulou que a mente estrutura ativamente a experiência, produzindo uma forma organizada e cognoscível. Para ele, nossas qualidades perceptivas e cognitivas se impõe á experiência, criando objetos que conhecemos, sobre os quais a ciência propõe formulações fenomenicamente verdadeiras.
Contudo, mesmo depois de Kant, os cientistas colocando-se no papel de descobridores, buscaram desvendar os mistérios da natureza, postulando que o saber somente é digno de confiança se proporciona o conhecimento do mundo tal como ele é.
Esse panorama começou a mudar com Schopenhauer, Nietzche e Haidegger que se colocaram contra o discurso epistemológico da modernidade. A crise deste paradigma vem colocar em xeque a separação entre mundo real e mundo ilusório; a segurança das representações claras e distintas como fundamento de um conhecimento válido e a possibilidade de separação entre o sujeito epistêmico e o objeto de seu conhecimento.
Com a expressividade do pensamento pós-moderno, passam a ser questionadas as verdades universais. Abandonar o pensamento moderno implica deixar de lado a segurança de uma interpretação acurada da realidade, no que tange aos critérios de produção de conhecimento que ajudam a corrigir os vieses pessoais, culturais e os erros de julgamento. Dentro desta concepção já não faz sentido agarrar-se ás certezas, mas tem que se conviver com a incerteza, a impreditibilidade e o desconhecido.
Poder-se-ia fazer uma distinção entre pós-modernidade e pós-modernismo. De acordo com Miners (MINERS, 1995), o primeiro refere-se a mudanças na sociedade industrial. Quanto ao segundo, observa-se duas vertentes: o cultural (artes, arquitetura, estética em geral) e o epistemológico ou teórico, baseados nos trabalhos de Derrida, Foucolt e Lyotard.
Anderson (ANDERSON, 1997) caracteriza o pós-moderno como um posicionamento crítico, não como uma nova era. Para ela, o pós-moderno, como uma direção filosófica, pode-se diferenciar da tradição modernista, questionando seu discurso monovocálico enquanto fundamento.
O pensamento pós-moderno não se apóia num método que garanta a verdade, mas exige que se desenvolvam meios de conhecimento que exponham a experiência como ela é vivida. Sem ter interesse em leis gerais, o pensador coloca –se aberto às diferenças, dando importância aos contextos de tempo e espaço, valorizando o mesmo tempo o único e o complexo. Desta feita, a ênfase recai sobre a multiplicidade de significados e na descrença de verdades a-históricas.
Essa maneira de pensar acaba sendo alvo de críticas como ter que conviver com a incerteza e o desconhecido. Entretanto, ao negar a possibilidade de um conhecimento objetivo, o pensamento pós-moderno legitima outras bases epistemológicas, inovando as ciências em geral e as práticas delas decorrentes.

O fim da ciência?

No livro “Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade”, Ilya Prigogine (in SCHNITMAN, org. 1996, p. 25) ao falar sobre a nova ciência, afirma que “as mudanças de paradigmas são o resultado de contradições entre predições teóricas e os dados experimentais. Produz-se então uma crise, uma bifurcação da qual emerge um novo paradigma que dribla as contradições. Tudo volta a calma e a pesquisa científica prossegue atendo-se aos métodos já estabelecidos. Para o autor, já não se pode falar unicamente de leis universais extra-históricas, mas tem que se acrescentar o temporal e o local, correndo o risco de nos afastarmos dos ideais da ciência tradicional. E citando Hawking, ele afirma: “as leis da física não estabelecem nenhuma diferenciação entre passado e futuro. O que marca a transição entre a velha e a nova ciência é a inclusão do elemento temporal”.(opus cit. p. 39-40)
Para Morin, (in SCHNITMAN, org. 1996, p. 54-5) “assistimos à invasão da cientificidade clássica nas ciência humanas e sociais. Expulsou-se o sujeito da psicologia e o substituímos por estímulos e respostas. Expulsou-se o sujeito da história, eliminaram-se as decisões, as personalidades, para só ver determinismos sociais. Expulsou-se o sujeito da antropologia, para só ver estruturas, e ele também foi expulso da sociologia. […]Não obstante houve alguns retornos, às vezes tardios, como em Foucault ou em Barthes, coincidindo com um retorno do Eros e um retorno da literatura”. E ao falar desse sujeito ele afirma que considera possível representar o sujeito numa concepção cientifica se for possível conceber a autonomia (o que era impossível numa visão mecanicista e determinista) numa noção estreitamente ligada à de dependência e esta última inseparável da noção de auto-organização. Mais adiante ele finaliza: “descobrimos agora, a tragédia da existência do sujeito está ligada ao princípio da incerteza, que nos obriga a associar noções antagônicas: de inclusão e exclusão.[…] para isto, é preciso um pensamento capaz de unir conceitos que se rechaçam entre si e que são suprimidos e catalogados em compartimentos fechados que ainda reina em nosso mundo. É preciso que haja um novo conceito, que reconheça as ambivalência, as incertezas e as insuficiências, reconhecendo ao mesmo tempo seu caráter central e periférico; significante e insignificante”.
Em resumo, na perspectiva da nova ciência, as certezas não são inquestionáveis nem oniscientes. Os fenômenos são sempre situados num tempo e num espaço e o conhecimento que temos do mundo ao nosso redor nunca é completo, pelo contrário, sabe-se de antemão que sempre há incertezas. Por isso mesmo escapa do dogmatismo arrogante que reina na ciência tradicional, não caindo entretanto, num ceticismo resignado.
Poder-se-ia então, responder a pergunta do início: é o fim da ciência? De alguma maneira, sim. Mas, outra nasce em seu lugar: com a possibilidade das incertezas, com novas formas de conhecer, com novas alternativas para situações aparentemente fechadas. Onde há espaço para construção, criatividade, questionamentos, diferentes perspectivas.
Decorrentes desta nova postura, encontramos alguns projetos relacionados com os processos de mudança. Neles o observador é parte integrante do fenômeno a ser observado e ao mesmo tempo influencia e é influenciado pelo sistema que observa., sendo portanto co-construtores dessa realidade. Esta postura cria um novo conceito de ciência.

Ciência Natural ou Ciência Social?

De que ciência falamos, quando falamos em ciência? De que lugar falamos, quando falamos em ciência? Como ela é vista nos tempos atuais?

Santos Boaventura (BOAVENTURA, 1997, p.5) afirma que “quando procuramos analisar a situação presente das ciências no seu conjunto, olhamos para o passado, a primeira imagem é talvez a de progressos científicos dos últimos trinta anos. […] mas se fecharmos os olhos e voltarmos a abrir verificamos com surpresa que os grandes cientistas que estabeleceram e mapearam o campo teórico em que hoje nos movemos, viveram ou trabalharam entre o século XVIII e os primeiro vinte anos do século XX”
Isto posto, podemos voltar nosso olhar para o futuro e verificar que combinado a uma tecnologia altamente desenvolvida, convive uma incerteza e um questionamento das verdades absolutas. Segundo o mesmo autor, vivemos em uma época de transição, que traz consigo o fim de um ciclo de hegemonia de uma certa ordem científica. (Idem. p. 9) Para ele, o modelo de racionalidade científica vigente atravessa uma profunda e irreversível crise. O que começaria por permitir o questionamento da distinção entre ciência natural e ciência social.
Essa nova visão, permitiria no meu entender, que se observasse o conhecimento e o conhecimento do conhecimento, que dão corpo às ciências, não como galerias fechadas, que obedecem a hierarquias impostas pelas verdades possíveis de reprodução em laboratório, mas como uma rede intercambiável de informação que se completa e interage entre si.
Boaventura (opus cit.) afirma: “ A distinção entre ciências naturais e ciências sociais deixou de ter sentido e utilidade. […] os avanços recentes da física e da biologia põem em causa a distinção entre o orgânico e o inorgânico, entre seres vivos e matéria inerte e mesmo entre humano e não-humano. As características de auto-organização, do metabolismo e da auto-reprodução, antes consideradas específicas dos seres vivos, são hoje atribuídas aos sistemas pré-celulares de moléculas”. (p.37) E mais adiante, ele prossegue: “…o avanço do conhecimento das ciências naturais e a reflexão epistemológica que ele tem suscitado, têm vindo mostrar que os obstáculos ao conhecimento científico da sociedade e da cultura são de fato condições do conhecimento em geral, tanto científico-social, como científico-natural”.
Penso que estas afirmações colaboram para enriquecer o estudo das epistemologias na pós-modernidade, na medida em que refletem sobre as condições de possibilidade da ação humana projetada num mundo a partir de um espaço-tempo-local.
Finalizo esse item, com as palavras do mesmo autor, que no meu entender respondem as questões com as quais iniciei. “ Sabemos hoje que a ciência nos ensina pouco sobre nossa maneira de estar no mundo de estar no mundo e que esse pouco, por mais que se amplie, será sempre exíguo porque a exigüidade está inscrita na forma de conhecimento que ele constitui. A ciência moderna produz conhecimentos e desconhecimentos. Se faz do cientista um ignorante especializado faz do cidadão comum um ignorante generalizado”. (grifos meus, p. 55)

Novas Bases Epistemológicas: Construtivismo e Construcionismo Social

A este trabalho interessa focalizar duas correntes epistemológicas distintas situadas sob a égide do paradigma da pós-modernidade: o construtivismo e o construcionismo social. Ambas podem ser associadas a um conjunto de práticas adotadas no modelo de terapia familiar de orientação sistêmica, bem como práticas adotadas para o trabalho com grupo de pessoas em instituições, como o colocou Jefreson (JEFRESON, 1998).

Construtivismo: um olhar pós-moderno

O enfoque epistemológico proposto pelo construtivismo descarta a noção do conhecimento como uma representação do mundo, independentemente do observador. No seu lugar, propõe que as construções conceituais que constituem o que denominamos conhecimento, tendo uma função adaptativa, devem ser viáveis no mundo da experiência do sujeito cognoscente.
O homem, no enfoque construtivista, é um indivíduo autônomo, governado pela sua organização estrutural, seu sistema nervoso, seus constructos e sistemas de crenças, seu significados constituídos no convício com os outros. Assim organizado, esse homem, ao descrever seu mundo, o constrói (GRANDESSO, 1999).
O construtivismo procura eliminar a presunção do saber, enquanto busca de uma Verdade ontológica, propondo uma teoria do conhecimento ativo, de acordo com a qual sujeito conhecedor e objeto conhecido são intimamente inseparáveis. Assim, o conhecimento não é passivamente recebido nem pelos sentidos, nem pela comunicação, sendo ativamente construído pelo sujeito cognoscente. Neste sentido, propõe que o significado é um produto da atividade humana e não uma característica inata da mente ou propriedade inerente dos objetos ou eventos do mundo (MASCOLO & POLLACK, 1997). Por outro lado, pode-se dizer que o conhecimento, descartando a possibilidade de descobrir uma realidade ontológica objetiva, tem como função organizar o mundo experiencial do sujeito.
Como uma posição epistemológica distinta, o Construtivismo emergiu como uma alternativa para os problemas e dificuldades derivadas das explicações empiristas e racionalistas do conhecimento, que postulavam a separação entre sujeito cognoscente e o objeto conhecido. A principal característica do construtivismo, independentemente de que falando, é a interdependência entre o observador e o universo observado. Esta interdependência, segundo Watzlawick (WATZLAWICK, 1995), tanto excede à teoria da relatividade de Einstein, que coloca a ênfase sobre o ponto de vista do observador, como postulado da relação de desfocagem, cuja ênfase é colocada sobre a influência da observação sobre o observador.
Segundo Neimeyer (NEIMEYER, 1997) falar de construtivismo no singular é mais uma questão de retórica. Isto porque, condizente com o pensamento pós-moderno, há uma polifonia de vozes, caracterizando uma pluralidade de enfoques ditos construtivistas. Pesquisando a literatura da área, defrontamo-nos com uma proliferação de rótulos, referentes a versões alternativas do construtivismo, dentre as quais: construtivismo radical (von GLASERSFELD, 1991, 1996; von FOESTER, 1974, 1981; WATZLAWICK, 1994 , 1995); construtivismo crítico ou psicológico ( MAHONEY, 1991,1998; GUIDANO, 1994); construtivismo trivial ao qual von Glasersfeld contrapõe o construtivismo radial (von GLASERSFELD, 1994); construtivismo moderado (OPAZO & SUÁREZ, 1998) construtivismo dialético (PACUAL-LEONE, 1997); construtivismo social no qual podemos incluir Bruner (BRUNER, 1997) e Mascolo (MASCOLO, 1940; alternativismo construtivo associado a George Kelly e seus seguidores (KELLY, 1995) construtivismo cultural (WEDGE, 1996); construtivismo epistemológico e construtivismo hermenêutico categorização utilizada por Chiari & Nuzzo (1996) para organizar as diferentes versões construtivistas; construtivismo terapêutico (MIRÓ, 1998) e , até construtivismo social (GERGEN, 1985, 1998; SHOTER, 1993, 1997).
Muitos autores têm se dedicado a estabelecer as aproximações e diferenças entre tantos rótulos (CHIARI & NUZZO, 1996: NEIMEYER, 1997; HOFFMAN, 1990; FRIED SCHNITMAN & FUKS, 1994), insistindo na necessidade de sistematização desses conceitos enquanto posições epistemológicas. No mínimo, tal diversidade tem favorecido muita tensão entre os distintos grupos, além do que uma confusão conceitual na literatura “em que autores definem sua posição como distintas às outras e acabam escorregando para a posição que contestam, num uso quase que indiscriminado dos termos e até mesmo ocasionalmente contraditório”( GRANDESSO, 1998b, p.3).
Muito dessa proliferação de nomes e da inespecifidade de seus usos pode ser atribuído ao fato de, independentemente das diferenças, todos estarem sob o âmbito paradigmático pós moderno e refletirem variações em torno da noção de que o significado é uma construção ativa do indivíduo na linguagem. Contudo, os limites entre as diferentes versões são pouco definidos, resultando num uso indiscriminado e até mesmo ocasionalmente contraditório entre os conceitos dos diferentes discursos ( NEIMEYER, 1993; STEIER, 1991a; CHIARI & NUZZO,1996).
Considerando que a articulação das convergências e divergências entres os diferentes subgrupos faz-se relevante, à medida que pode favorecer um diálogo entre eles, organizar teoricamente tradições que compartilham um eixo epistemológico comum, pontuar as diferenças, se houver, e, caso contrário, eliminar barreiras desnecessárias e faccionistas entre territórios. Em última análise, tal organização conceitual pode favorecer a ampliação do entendimento dessas duas vertentes epistemológicas que tão bem representam o pensamento pós-moderno. Entretanto, não me deterei na especificidade de cada abordagem visto não ser esta a proposta deste trabalho. Farei tão somente algumas considerações sobre o Construtivismo e o Construcionismo Social, enquanto representantes de um novo paradigma.

A respeito de alguns enfoques Construtivistas

Parece-me relevante incluir aqui, uma contraposição entre noção de igualdade /correspondência(match) proposta pelo construtivismo trivial e a de encaixe (fit), do construtivismo radical(GRANDESSO, 1999).
Von Glasersfeld (1994) estabelece a diferença entre o construtivismo trivial e o construtivismo radical a partir da noção de conhecimento. Segundo ele, o construtivista trivial, considera que o conhecimento estabelece uma relação de igualdade/correspondência (match) com a realidade. .Já o construtivista radical, procura pelo conhecimento que encaixa (fit), da mesma forma que uma chave encaixa numa fechadura e, assim, pode abrir a porta. Encaixar descreve uma característica da chave, não da fechadura. Glasersfeld lembra-nos de como distintas chaves, muito diferentes da chave original, podem abrir a mesma porta. Assim, o construtivismo radical considera o conhecimento como construção de realidades possíveis. Segundo a análise de Grandesso (opus cit.) o encaixe não descreve nem uma característica da chave e nem da fechadura, mas sim uma operação que processa num espaço comum entre ambas, resultando numa adaptação harmoniosa da qual resulta o abrir de uma porta.
Chiari & Nuzzo (1996) fazem referencia a uma outra analogia oferecida por von Glasersfeld, que ilustra a posição construtivista radical, no que diz respeito ao seu postulado de interação entre sujeito e objeto, na construção do conhecimento. A relação entre sujeito e objeto pode ser compreendida como a relação entre um rio e suas margens. Um rio corre onde quer que suas margens permitam com que a água flua. Há uma sutil interação entre “lógica” interna da água e a topologia do território, impondo restrições uma a outra, de forma recíproca e inseparável. Dizer que um rio corre para a direita, alegando que isso se deve à existência de uma colina, menospreza a lógica da água que impede o rio de correr para cima, por exemplo. Assim, um rio não representa suas margens, mas encaixa-se a elas, achando seu curso entre as restrições resultante da interação entre as margens e a lógica da água.
Outro enfoque construtivista seria o social. Os proponentes da abordagem construtivista social tendem a diferenciá-la tanto de outras propostas construtivistas, como das construcionistas sociais. O construtivismo social fundamenta-se num modelo sócio cultural da mente, de acordo com o proposto por Vygotsky (1984, orig. 1934), para que o funcionamento mental tem sua origem nos processos entre pessoas e não nas mentes individuais. Assim, o desenvolvimento do funcionamento mental decorre da internalização das atividades extremamente desenvolvidas em interações sociais. Nesse sentido, no que diz respeito ao desenvolvimento, primeiro aparece o plano social, depois o psicológico, portanto configurando inicialmente um plano interpsicológico de desenvolvimento, depois, um intrapsicológico.
Os dois pressupostos centrais do construtivismo social são formulados por Mascolo (1997):
1- O desenvolvimento das funções mentais superiores decorre de dois processos dialéticos: a internalização da atividade que se desenvolve entre as crianças e os agentes culturais em interação social e a transformação e externalização de tal atividade no decorrer de seu desenvolvimento. Portanto, os processos psciológicos originam-se a partir das interações entre pessoas e não de dentro do indivíduo. Este processo é dialético, uma vez que as crianças são participantes ativas nas interações sociais, de modo que, ao mesmo tempo em que internalizam a normas e prática sociais, elas também afetam a própria natureza dos processos psicológicos que internalizam e os produtos das interações sociais. Portanto, o desenvolvimento psicológico caracteriza-se como uma produção conjunta de um indivíduo ativo e um contexto social estruturador.
2- os processos psicológicos são intrinsecamente sociais, somente podendo ser compreendidos em relação ao contexto e práticas sociais da comunidade do indivíduo.
Os construtivistas consideram os processos mentais como intrinsecamente motores, o que, contudo, não implica a desconsideração dos contextos sociais nos quais experiência é construída. Porém, embora apoiados na noção de que a experiência humana sempre inclui a interação social, antes de construir-se a si mesma a partir do outro, a criança constrói o outro, atribuindo a este as capacidades perceptivas e cognitivas que vê (von Glasersfeld, 1996). Assim, todo conhecimento é resultado da reflexão e abstração a partir da percepção e dos esquemas de conhecimento anterior, portanto, resultado de uma construção individual.
A posição construtivista social diverge da construtivista (tomada aqui indistintamente tanto radical como crítica), à medida que esta enfatiza a natureza ativa e pró-ativa da construção de todo conhecimento, numa primazia dos processos mentais como auto-organizadores (MAHONEY, 1998; von GLASERSFELD, 1996).
Pode-se apontar uma diferença teórica entre o construtivismo social de um lado e o construtivismo (radical e crítico) de outro: enquanto os construtivistas postulavam um mundo mental, teorizando sua relação com o mundo externo, os construtivistas sociais priorizam o processo social do qual entendem decorrer o conhecimento a nível da mente individual.
Considero importante ressaltar que, para os construtivistas, o conhecimento tem a função de eliminar as perturbações. Tanto na teoria da evolução como na teoria do conhecimento construtivista, a viabilidade relaciona-se à noção de equilíbrio aplica-se à questão da sobrevivência, sendo garantido geneticamente, no que diz respeito ao conhecimento o equilíbrio refere-se à manutenção de resultados obtidos pelas estruturas cognitivas de um sujeito epistêmico, livres de contradições e conflitos conceituais (GLASERSFELD, 1996).
Uma das conseqüências do enfoque construtivistas para o conhecimento é de que sempre haverá mais de um caminho para alcançar determinada meta. Isto porque a viabilidade depende tantos das metas que são eleitas (localizadas no mundo da experiência), quando dos métodos adaptativos para alcançá-las. Quando se conseguiu alcançar uma meta com êxito, isto não quer dizer que se descobriu o caminho, ou o funcionamento do mundo objetivo (GLASERSFELD, 1996). A solução é apenas uma chave que funciona. Da mesma forma, os problemas não existem independentemente de um observador que os defini como tal. Os problemas se manifestam quando um obstáculo bloqueia o caminho para o alcance de uma meta do sujeito.
Em síntese, para o construtivismo radical não há diferença entre o conhecimento da linguagem, dos outros ou do mundo (IDEM). Todo e qualquer conhecimento resulta de nossa reflexão e abstração, a partir do que percebemos e concebemos. O conhecimento como possibilidade de construção de uma correspondência com uma realidade existente independente, uma Verdade ontológica, é uma ilusão. No que diz respeito ao construtivismo epistemológico, o princípio organizador é o pressuposto de que a ordenação e a organização do mundo são constituídas pela experiência humana, portanto, pelo operar de um sujeito num mundo particular.
Vejamos agora o que se passa em relação ao Construcionismo Social.
Alguns pressupostos do Construcionismo Social

O Construcionismo Social também lida com o conhecer, tendo suas raízes no pensamento crítico (social, político, cultural). Ele ressalta a necessidade de uma revisão de nossos próprios vieses, nossas pré-concepções, determinantes e pressupostos, localizando essas reflexões num contexto social de aprendizagem e observação.
Os construcionistas entendem que as idéias, as lembranças e os conceitos emergem no intercâmbio social, predispondo a construção eminentemente social de mundo através de práticas discursivas.
Nas palavras de W. Barnett Pearce: são cinco as idéias básicas da perspectiva construcionista social:
O mundo social consiste em atividades, que são as atividades conjuntas semelhantes a jogos.
Os seres humanos tem uma capacidade inata ara criar seus lugares nesses tipos de jogos. Chegamos a adquiri os valores, o conhecimento e o sentimento de poder, na medida que encontramos nosso lugar neste jogos e nos deslocamos por eles.
As atividades se estruturam segundo certas regras de obrigatoriedade cerca do que devemos ou não fazer. Primordialmente não somos seres epistêmicos mas, seres sociais. Nossa tarefa é averiguar como atuar, como prosseguir, o que esperar dos demais.
Se quisermos entender esses jogos, devemos nos centrar no produzir e no fazer. A substância de nossos mundos sociais está composta por nosso produzir e por nosso fazer.
Quando nos incorporamos a essas pautas de interação social semelhantes a jogos, nunca nos incorporamos a um só jogo. Em nossas vidas sempre jogamos muitos jogos ao mesmo tempo. O que nos faz perceber que um ato apropriado para um jogo não é, com freqüência, apropriado para outro. A estratégia vencedora em um contexto pode ser, em outro, uma receita destinada ao fracasso. ( in SCHNITMAN, 1996, p. 177,178 e 179)
Este novo paradigma, ainda segundo o mesmo autor, “não é um invento extraído do nada, mas uma resposta às condições cambiantes do mundo contemporâneo,[…] o construcionismo social é uma maneira de enfrentarmos estas circunstâncias cambiantes em que nos encontramos”.(p.182)
No Construcionismo Social, os significados do conhecimento originam-se no processo que ocorre entre as pessoas e não dentro dela, postulado a natureza interpessoal dessa construção.
Shotter (1993), defendendo uma posição construcionista social considera que o mundo interno não se apresenta como um reflexo de processos inerentes à psique individual, sendo desenvolvida na ação conjunta, caracterizada como um processo social e lingüístico. Esse autor considera comum a todas as versões construcionistas sociais a ênfase dialética sobre a contingência e a criatividade da interação humana, ao construir e ao mesmo tempo ser construída pelas realidades sociais.
Mascolo e Dalto concordam com o pressuposto construcionista de que os selves são definidos na relações, mas consideram que isto não implica negar a possibilidade de autoria, do agenciamento que os define como agentes nos contextos da experiência. Para eles, ..”autoria (agency) humana e contexto social são inseparáveis, constituindo-se mutuamente” (MASCOLO & DALTO, op. cit., p.183). Consideram ainda, que quando Gergen (1991) refere-se ao pressuposto de que o “EU” torna-se eu, pela incorporação social de múltiplos outros, está fazendo um referência implícita a um processo de internalização. Ou seja, não se pode internalizar os outros, sem que sejam mantidos no processo, elementos do self que internaliza.
Os construcionistas sociais focalizam sua atenção nos processos microssociais, defendendo a compreensão humana a partir da esfera relacional e focalizam-se nas práticas discursivas que, segundo eles, constituem a base de qualquer conhecimento.
Como sabemos aquilo que pensamos saber? O que de fato sabemos quando realizamos nossas operações de busca de conhecimento? Essas questões, enquanto preocupações filosóficas, remontam aos pré-socráticos, cujas respostas se afinam com as que os construtivistas, milênios depois, vêm propor. Tanto do ponto de vista epistemológico – o como conhecemos – quanto do ponto de vista ontológico – o que conhecemos – suas raízes vão ser encontradas na profundeza da história das idéias.
Humberto Maturana (1972) afirma: “O pressuposto a priori de que o conhecimento objetivo constitui uma descrição do que é conhecido… comete petição de princípio nas perguntas: Que é saber? Como sabemos?”
Uma análise comparativa entre Construtivismo e Construcionismo Social

A título de encontrarmos uma base paradigmática comum, poderíamos tecer uma interface entre o Construtivismo e o Construcionismo Social.[1]
ambas as posições confrontam a pressuposta existência de um “mundo real” passível de ser conhecido com “certeza” objetiva. Enfatizando a natureza construída o conhecimento, tanto o construtivismo como o construcionismo social são céticos em relação às garantias fundamentais de uma ciência empírica;
pode-se dizer que há uma compatibilidade metodológica entre as duas abordagens, à medida que recuperam a capacidade de atuar de tal modo que faz experimentar o mundo como construção. Assim, tanto o construtivismo como o construcionismo social, antes de dizerem como o mundo é, apontam para como o mundo pode parecer quando trabalhamos com ele (PARKMAN, 1997);
ambas concordam que é o observador quem cria as distinções a que chamamos “realidade”, desafiando a concepção do conhecimento como algo criado dentro da mente através de observação imparcial;
ambas desfiam a visão tradicional da mente como um dispositivo para refletir a natureza de um mundo independente;
ambas descartam a visão correspondentista da linguagem como uma representação icônica do mundo, assumindo uma postura pragmática (RORTY , 1997);
as duas abordagens apóiam na noção de reflexividade e auto-referência na construção do conhecimento , de forma tal que não se pode conceber uma distância entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Portanto, ambas questionam a autoridade tradicionalmente concedida à ciência clássica e aos seus métodos, que não levam e consideração seus próprios efeitos na construção do conhecimento (von GLASERSFELD. 1994; 1996; STEIER 1991; GERGEN, 1994);
conforme enfatiza Pakman (1997), o construtivismo e o construcionismo social compartilham um território comum pelo fato de ambos promoverem a reflexão. O construtivismo contribuiu para que víssemos a nós mesmos de modo reflexivo, incluindo os observadores, como partes das observações que fazem. Já o construcionismo social, na medida em que tem suas raízes no pensamento crítico (social, cultural, político ou linguístico), ressalta a necessidade de uma revisão de nosso próprios vieses, nossas pré-concepções, determinantes e pressupostos. Como bem o ressalta Parkman, em ambas as abordagens a reflexão se dá num contexto social de aprendizagem e observação mútuas, e não no isolamento;
Assim, penso que, tanto o Construtivismo como o Construcionismo social rompem as convenções tradicionais, desenvolvendo uma teoria do conhecimento na qual este não se refere a uma realidade ontológica “objetiva”. O conhecimento diz respeito ao ordenamento e à organização de um mundo constituído pela experiência, não tendo qualquer pretensão à verdade, no sentido de correspondência com uma realidade independente de quem a descreve.
De uma forma geral, as divergências fundamentais entre as duas posições giram em torno da contraposição de algumas teses consideradas antagônicas entre construtivistas e construcionistas sociais. Embora o construcionismo social mantenha uma relação intertextual com teorias que postulam uma base social para a vida mental como o construtivismo social, pode-se apontar diferenças entre ambos, na medida em que os teóricos do construtivismo social, objetivaram um mundo especificamente mental, enquanto o foco do construcionismo social, conforme mencionei anteriormente, é o processo microssocial, compreendendo a ação humana.
Para os construcionistas, termos referentes a mundo e mente são constituintes das prática discursivas e, como integrantes da linguagem, estão sujeitos à contestação e negociação; para os construtivistas, no entanto, a cognição e suas operações funcionam ativamente através da reflexão e abstração, cumprindo uma função adaptativa, servindo para organizar a experiência.
Gergen (1994), vincula o construtivismo à tradição do individualismo ocidental, na medida em que relaciona o conhecimento a processos intrínsecos do indivíduo, que só pode operar a partir de dentro; já o construcionismo social vincula as fontes da ação humana aos relacionamentos, e a compreensão do funcionamento individual ao intercambio comum. Isto sugere que as formas mais radicais de construtivismo, reduzem o mundo à construção mental, e portanto, não são compatíveis com a construção eminentemente social de mundo através das práticas discursivas, propostas pelo construcionismo social.
O construcionismo enfatiza as práticas sociais e intercambio entre pessoas; o construtivismo coloca sua ênfase no indivíduo, em como esse indivíduo biológico e psicológico opera para construir sua experiência.
Ambas visões de mundo, permitem-nos uma aproximação com o saber que nos coloca como partes integrantes do que buscamos conhecer. Essa especificidade é que faz a grande diferença!
Certezas e Incertezas

Iniciei este trabalho afirmando que uma produção acadêmica é fruto, na maioria das vezes, do desejo de seu autor. Como terapeuta familiar, preocupada com as questões do conhecimento e de como ele circula no sistema familiar, foi-me extremamente gratificante realizá-lo. Pesquisar e refletir sobre minha prática à luz das novas epistemologias, permitiu-me repensar o que a família conhece, como ela conhece, como são articulados as noções de espaço e tempo dentro do contexto inter – relacional e de que lugar eu falo, quando junto com o sistema familiar, crio o contexto terapêutico.
Penso que o encontro entre o conhecimento intelectual e a prática clínica – o atendimento das famílias – fica sobremaneira enriquecido quando rompem-se as certezas e nos permitimos ganhar mais interrogações. As relações entre o singular e o geral, entre o central e o periférico não se restringem a meras especulações filosóficas, mas abrem possibilidades de reflexão que por sua vez norteiam as construções realizadas nos encontros terapêuticos. As construções meramente conceituais perderam seu lugar como pólo de uma lógica de disjunção. Ficam assim, convertidas em ingredientes de uma paisagem articulada na construção dos sujeitos e no complexo cenário de nosso existir.
Nossa proposta volta-se para a exploração de novas construções, que permitem a confrontação de modelos propostos com os efeitos esperados. Pode-se assim refletir sobre o processo. Pode-se ainda, explorar várias alternativas, até que a transformação se faça possível. E desta feita ao se pensar, viabiliza-se o atuar.
Como certeza, fica a perspectiva de muitas leituras sobre o cotidiano.
Como incerteza, fica um espaço aberto para a possibilidade de desconstrução, para se trabalhar um tempo onde haja enriquecimento a partir das diferenças.

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[1] Comparação proposta por Marilene Grandesso em sua tese de doutoramento em Psicologia Clínica para a PUC SP, 1999