Elizabeth Polity

Como se pode pensar a disciplina? Como estabelecer limites, de modo a promover crescimento e autonomia? Estabelecer a disciplina pode ser um ato de afeto? Ou é um ato de poder? (“Manda quem pode, obedece quem tem juízo” – afirma o dito popular…).

Certamente estas questões já foram alvo de reflexão por parte de muitos pais e professores que se vêem às voltas com a desafiadora missão de educar.
Muito se tem discutido, nos dias atuais, sobre as questões de disciplina e limites. Parece ser consenso entre diferentes pensadores das relações humanas, a importância de se estabelecer limites claros e bem definidos para propiciar condições seguras de desenvolvimento para a geração mais jovem. Por outro lado, também muito se tem falado de abusos de poder, de violência – física e moral – impetrada contra filhos e alunos, sob a égide da mesma disciplina.
Não me admira que pais e professores sintam-se hoje bastante confusos sobre quando e como corrigir, o que permitir e o que proibir, como não serem acusados de omissos, nem tampouco de violentos ou déspotas.
Para poder atender aos propósitos deste artigo, deixarei de fora as considerações sobre o abuso da autoridade e da imposição das regras, que conduz às patologias, da mesma forma que a ausência ou a dificuldade em estabelecê-las. Tratarei aqui, apenas das considerações sobre a possibilidade de colocar limites, como legítima expressão de interesse e de afeto pelo outro.
Como estabelecer um equilíbrio entre acolher e corrigir? Como proporcionar segurança através de regras claras e bem definidas, sem destruir a criatividade e a iniciativa, condições tão importantes para o crescimento? Penso que estes sejam os marcos balizadores para aqueles que pretendem educar com afeto.
Com muita freqüência, seja na clínica, atendendo Famílias, seja na Instituição Escolar, deparamo-nos com questões relacionadas ao limite e à disciplina. O desafio que se impõe está, sobremaneira, relacionado à forma de exercê-los com afeto.
Winnicott, pediatra inglês que se dedicou a estudar o desenvolvimento infantil sob a óptica da Psicanálise, fala da mãe suficientemente boa que, entre outras qualidades, é aquela que oferece um holding para permitir o desenvolvimento saudável de seu bebê. Oferecer holding é dar um limite seguro para a criança se desenvolver, limite este que precisa continuar existindo, em diferentes níveis, na infância, no despertar da adolescência e mesmo ao longo de todo Ciclo Vital. Mas, essa mãe, também precisa ensinar seu bebê a tolerar frustrações e, desde cedo, perceber que existem limites externos que ele – o bebê – não controla.
O limite, visto num prisma mais amplo, é psicológico e socialmente estruturante. Ele dá a dimensão da realidade, diz o que se pode ou não fazer/ser, onde começa o desejo e onde termina a possibilidade de exercê-lo. E, assim, o sujeito constrói uma auto-imagem interna, aprendendo a perceber a si mesmo em contexto, pois sua existência não se dá senão em relação.
Alguns pais e professores indagam-se como exercer esse holding com firmeza e ternura e fazer-se respeitar. Penso que antes de tudo é preciso que eles mesmos se reconheçam como competentes e acreditem que, na base da construção da disciplina e da colocação do limite, está o afeto e o legítimo interesse pelo outro. Eu nomearia este estado de autoridade interna.
Perceber-se na relação e perceber o outro são passos igualmente importantes para se colocar limites. Indagações como: Acredito no que estou impondo? Concordo com estas regras? (Chegar cedo em casa é importante? Para quem?) O que eu penso/sinto com esta ordem? (Fizeram comigo…, aprendi assim…, sinto-me confortável em repetir?) Por que exigir este comportamento? (O que os outros vão pensar…?) podem ser de grande valia para se negociar uma ordem, pois elas nos permitem entender o que realmente desejamos e para quem este limite é estruturante.
Mas isto sem esquecer que, em cada faixa etária, existem diferentes possibilidades de negociação. Isto é, de conversas que tentam atingir uma decisão consensual e que beneficiem ambas as partes. Para que uma negociação construída possa vir ter lugar, é preciso se desenvolver uma escuta atenta e respeitosa do outro. Essa atitude costuma ser muito eficiente, estabelecendo respeito e admiração entre quem manda e quem obedece, mostrando-se especialmente válida para se trabalhar com adolescentes.
É claro que quanto menor for a criança, mais difícil será estabelecer um leque de opções para o que/quando/como deve ou não ser feito. Mas, mesmo assim, é interessante desde cedo adotar esta prática dentro de parâmetros inteligíveis pela criança, pois todos (mesmo os mais novinhos) apreciamos ser respeitados.
Interessante também é prestarmos atenção no nosso discurso. Não é o que se diz, mas a emoção com que se fala que define o dizer como uma ação. Um escutar que aceita o outro ou um escutar que o rejeita ou o desqualifica levam a significados diferentes, definindo ações diferentes na conversação. Os significados que se formam são coerentes com o estado emocional de quem participa desta conversação. Assim, as ações na linguagem estão totalmente entrelaçadas com as emoções que as sustentam.
De acordo com esta linha de pensamento, pode-se dizer que colocar limites é uma ação que fundamenta-se em uma emoção. Ela pode estar calcada numa aceitação do outro ou numa rejeição, que por vezes implica numa desqualificação. Traz consigo uma carga afetiva que é percebida pelo outro e que, portanto, desencadeia também uma resposta afetiva.
Assim, estabelecer limites tem a ver com estabelecer regras, normas, que não são escolhidas aleatoriamente, mas que tem muito a ver com estados emocionais e com contextos socioculturais nos quais emergem. Aceito que pensem diferente de mim? Como o outro vê/sente esta ordem? Posso tolerar que ele não concorde? (O que não significa abrir mão de condutas tidas como inegociáveis, apenas saber tolerar as diferentes visões de mundo).
Quando pais e professores percebem que estão intimamente implicados com sua emoção no ato de disciplinar, podem se ver fazendo parte do que eu nomearia de práticas dialógicas: conversações nas quais o contexto é definido pelo pedido. Aí, então, estabelecer limites e disciplinar podem ser entendidos como um ato de afeto, que respeita e legitima o outro, proporcionando-lhe melhores condições de adaptação à realidade.
Concordo com Bowen quando afirma que o desenvolvimento do ser humano é um processo de “diferenciação do self”, que é favorecido ao se estabelecer limites com afeto. Este é, ao mesmo tempo, um conceito intrapsíquico e interpessoal. A diferenciação intrapsíquica supõe a capacidade do sujeito de perceber sentimentos e pensamentos, diferenciando os próprios dos alheios. A diferenciação interpessoal implica o sujeito saber separar o eu do outro, podendo se ver em relação. Em ambos os casos, pais e professores muito têm a contribuir, mas desde que estejam aptos a educar, disciplinar e colocar limites de forma sintonizada com suas emoções e com as emoções que despertam no outro.
Entendo que, em se tratando de relações humanas, não existem regras prontas nem receitas, mas acredito no poder da (auto)reflexão – saber fazer perguntas é uma arte! -, na força de se ver implicado na situação, no desafio de perceber os próprios sentimentos e de saber respeitar nossos interlocutores (mesmo que eles sejam bem mais jovens e inexperientes). Estas práticas podem nos colocar na confortável posição de co-construtores de cada situação singular que se apresenta nessa maravilhosa experiência que é viver!

Referência Bibliográfica:
Se me ama não me ame, Mony Elkaim, 1998