Elizabeth Polity

A instituição escolar vem mudando ao longo das mudanças sociais e do mundo. É uma transformação em cadeia, em rede. E para fazer frente a elas, os profissionais de Educação precisam constantemente buscar respaldo no exercício diário e no processo recursivo do seu fazer para estar em constante movimento de adaptação.

Na tentativa de fazer frente às diversas demandas que surgem e de melhor atender a população de alunos com os quais trabalhamos, surgiram duas propostas que operam como co-adjuvantes do trabalho escolar: A mediação escolar e o tra-balho de Acompanhamento Individual Diferenciado.

I- MEDIAÇÃO ESCOLAR:
UMA ESPERANÇA PARA A CULTURA DA PAZ

Estendendo as fronteiras das intervenções sistêmicas para alem do âmbito clínico, passamos a observar, alem das pessoas e do ambiente, a interação entre eles. Nesse contexto, a mediação escolar – processo que procura focar as relações e os conflitos que surgem entre os sujeitos – é hoje a grande esperança de diminuir a violência na sociedade e desenvolver uma cultura de paz.

Através de colegas da área, tem-se notícia de que estão sendo criados espaços dentro das comunidades, seja nos conselhos de classe, seja nas escolas, seja nos centro de vizinhos, para discutir e resolver os conflitos da convivência , entre eles, as diferenças culturais, de religião, de idade, de idéias e pensamentos. Pois, a Mediação, especialmente em casos de delinqüência juvenil, é imprescindível para poder reintegrar esses jovens a sua família , e ambos na comunidade.

Na Instituição Escolar, este procedimento tem-se mostrado especialmente válido no que tange a aprender a trabalhar com diferentes formas de pensar/sentir/agir sem sentir-se desrespeitado ou ameaçado pelo novo ou pelo que é diferente, ao mesmo tempo que mostra outras possibilidade de trabalhar com as desavenças.

Perceber o outro e perceber-se em contexto, podendo entender que diferenças não são o mesmo que desigualdades. Estes são alguns princípios norteadores do trabalho do mediador, que busca uma solução construída em conjunto para resolver os impasses que surgem no dia a dia. Entendemos que é necessário criar, dentro das escolas, onde convivem e trabalham seres humanos, com toda sua complexidade, formas para que as pessoas resolvam entre si os conflitos que naturalmente surgem na disputa sobre idéias, objetos ou pessoas. Porque um sistema vivo é um sistema em permanente conflito, em luta para resolver suas diferenças, que tanto podem ajudá-lo a crescer, como a paralisá-lo.

Em diversas situações do dia a dia, os alunos são chamados a examinar suas diferenças e tentar construir soluções que sejam funcionais para todos os envolvidos. Nestas ocasiões, eles são acompanhados por um de nossos profissionais que os ajudam a perceber o outro, a ter empatia, a relativizar seus pontos de vista e assim poder encontrar meios não violentos para resolverem seus conflitos.

O diálogo e a convicção que todos merecem ser ouvidos e têm direito a uma opinião – ainda que diferente – é assegurado pelo mediador. Aprende-se assim, a mudar a perspectiva que existe uma só resposta para cada questão ou um só ponto de vista correto. O mediador pode dar as técnicas necessárias para desenvolver acordos que tirem o sistema da disputa, porém, é muito mais importante criar uma mudança de mentalidade nos alunos, onde eles próprios aprendam a retomar para si a responsabilidade de resolver seus próprios conflitos. E como mudar é desaprender, buscam-se, que soluções violentas sejam desaprendidas e paulatinamente substituídas por outras mais respeitosas no repertório relacional de nossos alunos.

II- ACOMPANHAMENTO INDIVIDUAL DIFERENCIADO

Incluir o aluno com necessidades especiais demanda, muitas vezes, a continua presença de algum profissional que o acompanhe em todas as atividades pedagógico/educacionais, dentro do ambiente Institucional.

O sistema de Acompanhamento Individual Diferenciado, por nós adotado e também conhecido como tutoria, coloca o professor como aquele que vai ajudando a re-significar histórias de vulnerabilidade e a desenvolver a capacidade de criar contextos de confiança, entre ele e o seu aluno.
Este acompanhamento visa, alem do atendimento da área pedagógica, dar suporte emocional ao aluno, formando com ele um vínculo inicial que muito se assemelha ao trabalho de maternagem.

Conforme citei anteriormente (Polity,1997), este trabalho deve ser feito pelo professor suficientemente bom, aquele que vai aceitar o aluno como ele é, oferecendo o holding e a continência tão necessários para seu desenvolvimento. É quem vai validar seus desejos, suas crenças e valores, ao mesmo tempo que possibilita trabalhar com suas dificuldades e assim poder (re)conhecê-lo como sujeito aprendente e individual.
São qualidades desse acompanhante: o interesse pelo desenvolvimento do sujeito, o respeito pela suas competências, a disponibilidade para a orientação e o incentivo ao seu trabalho. Alem, da “atenção plena”, definida como a percepção das próprias reações, sentimentos e pensamentos do professor e das de seu aluno, no registro de expressões verbais e não verbais, que permeiam este encontro e dão subsídios tão importantes para este relacionamento, quanto são as questões objetivas de conteúdo e de conceitos intelectuais.

É encantador perceber que podemos viver em diferentes níveis de realidade. No lugar do julgamento ou da interpretação, perguntas e estímulos ajudam a construir o complexo e estimulante processo de caminhar juntos. A curiosidade e a crença no potencial do outro levam-nos a perguntar para compreender: O que o aluno fala? De onde ele fala? Com quem? Como? Para quem? Quem são seus interlocutores?
Pois as perguntas mostram-se muito úteis e ampliadoras, neste processo de dar continência às necessidades de cada aluno, criando projetos específicos para seu desenvolvimento global.