Cláudia Arbex

O objetivo de ver o filho pela internet -aquele que salta aos olhos- é observar o trabalho da escola, verificar se está tudo bem, vigiar. Resta saber quem será de fato vigiado e o que os filhos ganharão com isso, se é que haverá ganhos.

Cada um de nós precisa ter o próprio universo, livre da interferência alheia, para que o livre arbítrio possa ser uma realidade, para que se constitua um espaço interno de reflexões e escolhas autênticas.

O exercício da liberdade pode começar bem cedo, desde que seja permitido à criança vivenciá-lo. A escola é um dos espaços que oferece essa possibilidade. No espaço escolar as crianças começam a treinar, bem cedo, a capacidade de solucionar problemas e vivenciar conflitos. A mediação dos professores frente a esses conflitos costuma surtir efeitos diferentes daquela exercida pelos pais; a postura do professor pode ser imparcial e em geral é menos passional. A escola, por sua vez, não é um lugar tão protegido e está inserida mais profundamente no cenário social. Já a mediação parental atinge esferas mais amplas no psiquismo infantil e pode restringir uma atuação autônoma e criativa.

Espiar pela fresta da fechadura ou pela internet é quase a mesma coisa: uma atitude invasiva para checar o que se passa no ambiente e controlar qualquer atitude do filho em relação aos professores e colegas e vice-versa.

Há poucas semanas uma professora me contou que foi chamada a prestar contas à diretoria por ter se referido a um aluno pelo primeiro nome, sem lembrar de chamá-lo pelo nome composto. Os pais, vigilantes, assistiram a “falta” cometida pela profissional e cobraram uma postura da escola.

Ora, que desrespeito pode haver em suprimir (muito provavelmente sem qualquer segunda intenção) um dos nomes de uma pessoa?

Por que os pais teriam o direito de interferir em pormenores da atuação de um professor ou de seu relacionamento com os alunos?

E a instituição, perderia o direito de gerir sozinha a própria estrutura, submetendo-se aos humores e julgamentos instantâneos dos pais?

Estabelecer relações criativas e diferentes daquelas que se tem em casa, com pessoas cujos perfis diferem dos pais e parentes, faz parte do processo de formação da personalidade e do crescimento das crianças.

Na escola essas relações acontecem, são reais e, por isso mesmo, passam por bons e maus momentos, harmonia e conflito.

A escola precisa ter personalidade para formar, educar e mediar o desenvolvimento dos alunos. Não pode submeter-se às convenções e muito menos às tendências sociais que mudam a todo o momento.

Não, definitivamente a escola não é uma extensão do lar. É muito mais do que isso.
Também não creio que os pais tenham o direito de ocupar todo o espaço da vida de seus filhos. Isso significa viver a vida deles ou não deixa-los viver a própria vida, o que considero ainda mais grave. Significa também depositar todo tipo de expectativa, receios e desejos nas costas dos filhos. Que carga difícil e pesada para eles!

É preciso refletir mais.
Olhar o filho pela internet traria algum benefício?

Aparentemente os pais seriam os maiores beneficiados, ou melhor, os únicos. Mas para tanto teriam que deixar de cuidar das próprias vidas para controlar filhos, professores, escola… e isso toma tempo.
N
ão enxergo benefício algum… ao contrário, isso me faz lembrar uma queixa recorrente: “Sinto culpa porque trabalho muito e tenho pouco tempo para os meus filhos…”. Pais e mães que sentem culpa e aderem aos filhos acabam impedindo que eles cresçam e se desenvolvam de maneira saudável.

Estabelecer um vínculo de confiança com os filhos, quando já podem compreender isso, e ajuda-los a perceber que são responsáveis por seus atos e escolhas, é um caminho.

Também é muito importante não descuidar da relação entre escola e família, que deve ser, preferencialmente, uma relação de parceria e diálogo. Os pais precisam se sentir confortáveis para trocar idéias, falar de suas dúvidas e inseguranças. E a escola tem o papel de acolher, esclarecer e dar o devido suporte educacional.

Uma relação de confiança é viável quando há a capacidade de crer, subjetivamente, em algo ou alguém. A subjetividade permeia todo o aprendizado do ser. Sabemos, por exemplo, que um professor pode pretender ensinar geometria ou literatura para todo o grupo e, ao invés disso, despertar conhecimentos surpreendentes e inusitados em alguns alunos.

Não existe um controle absoluto sobre as ações de quem quer que seja, com ou sem internet. Não saber tudo e aceitar isso com sabedoria faz parte da vida.
Não veja seu filho pela internet. Veja através da intimidade e do companheirismo.

Cláudia Arbex