Cláudia Arbex

“Aprendi a ser pai observando minha mãe”.
Fabrício Carpinejar (jornalista)

A história nos mostra como alguns hábitos são incorporados pela sociedade e na vida das pessoas, justificando determinadas organizações dos grupos sociais.
As mudanças de comportamento nas pessoas e grupos são mobilizadas, geralmente, por motivos de ordem política (predominantemente a busca pelo poder), econômica e social.

É muito complexa a relação entre indivíduo e sociedade. Parece-me quase impossível sugerir que um ou outro goze de uma real ascendência, embora seja difícil, para mim, imaginar que alguém possa usufruir de uma condição de liberdade nos dias de hoje.

Tenho a impressão, muitas vezes, que os ideais e as idéias solitárias e interessantes foram relegadas a um segundo plano. Imperam novidades preconizadas para a coletividade: superficiais, de um modo geral, cuja característica principal é dar um retorno rápido na forma de prazer, quase como uma brincadeira.

Observa-se que o indivíduo atua, quase sempre, a partir do que é aceito coletivamente; individualmente pouco faz, a não ser que desenvolva a personalidade de modo incomum ou faça um exercício constante de autoconhecimento e desprendimento.

No livro “Desenvolvimento da Personalidade” (1972), de Carl G. Jung, ele dedica um capítulo para definir a idéia de personalidade, sustentando: “Tornar-se personalidade não é prerrogativa exclusiva do homem genial. Pode mesmo alguém ser genial sem ter personalidade ou sem ser personalidade. Uma vez que cada indivíduo tem sua lei de vida que lhe é inata, cada um, em teoria, pode seguir esta lei acima das outras e tornar-se personalidade, o que significa atingir a totalidade.”

A manifestação de idéias que diferem do grupo social envolve alguns riscos pessoais. Um deles pode ser a sensação de isolamento. Muitos entre nós entramos em contato com pensamentos incomuns, que assustam, mas permanecem ali, às vezes durante toda a vida. Escolher entre a exteriorização ou não dessas idéias “diferentes” é uma outra questão.

A família é um desses grupos sociais, cuja organização segue alguns padrões necessários, mas também restritivos.

Família é uma palavra originária do latim, famulus, que quer dizer “conjunto de servos e dependentes de um chefe ou senhor”. Ainda abunda nos dias de hoje a família tradicional, cujos dependentes são mulher e filhos. Assim, conseqüentemente, o chefe é o homem, seja ele competente ou não para exercer essa função.

O homem ficou com o registro de chefe arraigado em sua consciência, e vem transmitindo essa posição às novas gerações.

Não acho que essa tenha sido, nem seja, uma posição confortável ou desejável para os homens, mas sempre foi possível enxerga-la como agente de uma situação conveniente. Conveniência mais do que aprovada pela sociedade capitalista.

A idéia que prevalece é a de que o homem deve ficar fora, trabalhar, ocupar-se, distanciar-se do que pode torna-lo suscetível, e engrossar as fileiras de chefes, patrões, homens viris, proprietários…
Que destino!

O que pensa o homem atual sobre essa condição? O que diz sobre o desejo de ser íntimo dos filhos, partilhar com a mulher momentos de afeto e conforto?
Há aqueles que nem pensam nisso, tão distanciados ou reprimidos quando se trata de entrar em contato com emoções que “fragilizam”. Mas há também, graças aos novos tempos, muitos que já se permitem ser tão “frágeis” quanto as mulheres.

Este artigo é dedicado a vocês, homens “frágeis”.

Faço aqui uma reflexão acerca do homem e da paternidade na atualidade. Os valores culturais me parecem ser os maiores responsáveis pelo inexpressivo estímulo à instalação de um novo papel masculino na sociedade, um papel ampliado e mais adequado.

Muito se discute sobre as mudanças do comportamento feminino, ora criticando, ora elogiando e analisando causas e conseqüências. Mas sobre as mudanças dos homens os comentários geralmente são superficiais e abordam assuntos fúteis, como a maneira de se vestirem ou o tipo de vaidade que expressam. Acho que há um equívoco. Não se trata de transformar homens e mulheres em seus gêneros opostos, e sim dar espaço para que ambos possam manifestar tendências naturais.

Vejamos como se comporta a lei diante dessas questões tão fundamentais.

A licença paternidade é um bom exemplo de como a sociedade organiza a vida dos indivíduos .

Como funciona em alguns países a Licença paternidade?

BRASIL: a Constituição de 1988 garantiu cinco dias para os pais. E tramita no Senado um projeto de lei que estende esse direito a pais adotivos.
ESPANHA, GRÉCIA E HOLANDA: dois dias.
ALEMANHA, ÁUSTRIA E IRLANDA: quem decide a duração da licença é o empregador.
PORTUGAL: como no Brasil, são cinco dias.
FRANÇA, DINAMARCA, BÉLGICA E REINO UNIDO: duas semanas.
ESTADOS UNIDOS: duas semanas – inclusive para pais adotivos. A licença cresce para 56 dias se o bebê nascer antes do tempo ou se a mulher ou a criança tiver problemas após o parto.
NORUEGA E FINLÂNDIA: três semanas.
SUÉCIA: um mês[1].

Fonte: Almeida Guilherme Advogados Associados ( Revista Criativa – agosto 2005)

Certamente a maioria desses dados são decepcionantes, exceto pela condição atual de países desenvolvidos como a Suécia, que parecem adotar a licença compartilhada. A licença compartilhada remunerada atua de modo extremamente construtivo, à medida que deixa a critério do casal a possibilidade de usar em parceria o tempo concedido por lei. Assim, pai e mãe podem se revezar nos cuidados domésticos e profissionais, possibilitando a existência de uma relação na qual prevalece a igualdade de direitos e deveres, extremamente justa e adequada a uma sociedade dirigida pela força de trabalho de ambos os gêneros.

Os homens e as mulheres dispõem igualmente da licença parental, que é negociada entre o casal. Essa licença abrange 450 dias (quinze meses cobertos por seguro social), podendo ser usada ao longo dos primeiros oito anos da criança, distribuídos em dias inteiros, meio período ou em 1/4 do dia.

Creio que as leis refletem os valores culturais de uma sociedade, e assim como esses, elas também demoram demais para mudar.

Se pensarmos em um homem que tira dez dias de licença, ou menos (no caso do Brasil), para cuidar de um filho, será possível enxergar o grau de dificuldade que ele enfrenta para se tornar pai. Tornar-se pai ou mãe é resultado de um exercício diário, de um envolvimento com tarefas cotidianas e cuidados essenciais com os filhos.

Os dez dias que se seguem ao parto coincidem com a experiência de transformação de uma família pela presença de um novo ser.

A curta permanência do homem nessa fase inicial tão importante denota uma condição prescindível.

Muito cedo o homem se vê obrigado a delegar boa parte da responsabilidade pela criação e educação do filho para a mulher (carga extensiva às avós, babás, enfermeiras, irmãs…). Para si resta prover, proteger à distância, buscar fora… o que não é pouco! Mas implica necessariamente num distanciamento, que aos poucos se torna natural, aceitável. Tão natural que a mulher se torna, digna ou não, praticamente insuperável no que toca a condição de “guardadora” dos filhos.

Contudo, esses papéis convencionais desempenhados por ambos na relação homem-mulher e na relação com os filhos, nem sempre traduzem tendências pessoais. Há homens que exercem a maternidade de forma espetacular. E o inverso também é verdadeiro. O trânsito desses papéis (paterno e materno) entre o casal precisa ser exercitado desde o nascimento do primeiro filho… até o amadurecimento do último deles.

O distanciamento planejado do homem, pela ausência de leis que permitam uma licença paternidade humana, é algo no mínimo antinatural e cruel.

Nesse primeiro período, certamente é preciso abrir espaço para a íntima e simbiótica relação entre mãe e bebê. O pai pode fazer isso e, ao mesmo tempo, encontrar seu lugar na nova configuração familiar, tão logo ela se amplie.

A presença do homem neste período não é “perfeitamente dispensável”, como dizem alguns. Ele também está entrando em contato com a paternidade. Por que não ingressar no universo de uma paternidade que inclua doses de intimidade, proximidade e acolhimento?.

Assim como não é possível para nós, mulheres, sermos apenas a representação do afeto, dos cuidados e do conforto maternos para nossos filhos, também é difícil para os homens serem apenas e sempre os provedores do lar e a representação da lei e da autoridade.

Não posso concordar que funções essenciais como a paterna e materna, sejam desqualificadas e traduzidas como uma ligação direta de características vinculadas aos gêneros masculino e feminino.

O nascimento de um bebê implica em transformações e ampliações de uma relação que já existia (entre mulher e homem). É desejável que ambos participem dessa mudança, desse novo formato, cooperando mutuamente para que isso ocorra e se reorganize da forma mais confortável para todos os implicados. O espaço do homem na casa não precisa ser drasticamente reduzido, como acontece muito, durante o evento do nascimento de um filho.

Contudo, o afastamento do homem é um comportamento socialmente aceito. E tudo que é socialmente aceito, é moralmente inquestionável para a grande maioria das pessoas.

Aqui mora o problema.

Não se mexe em nada. Os valores não são revistos. A lei fica congelada. As relações repetem velhos padrões. Não se renova. Não se experimenta novos formatos.

Por que não há um projeto de lei que vislumbre a ampliação do tempo da licença paternidade?

A resposta usual é a conseqüente falência do sistema econômico, que nunca prevê o bem estar humano. O “formato” capitalista não é razão suficiente (nem inquestionável) para fazer dessa prática algo definitivo.

Afastar-se tão cedo do filho implica em fixar-se numa condição pré-estabelecida, já que obriga o homem a ser o tipo de pai determinado por uma convenção social, congelada no tempo.

É contraditória a atuação do homem que no papel de pai é temido por ser forte e representar a lei, mas que na ausência da mãe se constrange em ser aquele que cuida e acolhe os filhos permanentemente. Fica o pai indefinido, meio difuso, oscilando entre a delicadeza de ser e a brutalidade de não conseguir manifestar o ser.

Ao homem cabe não só exercitar o novo papel como ficar ao lado e apoiar a mulher, tão exigida desde o início da gravidez até os primeiros meses de maternidade. A troca entre eles possibilita a adequação e a experimentação da função e da atuação de cada um nesse período.

Alberto Lima (1997) pondera que “para o homem, a perspectiva da paternidade é inicialmente carregada de um caráter mágico contrastante com sua identidade masculina.”

Cabe pensar como cada homem define a sua identidade masculina.

Será que essa identidade precisa realmente continuar entrando em conflito com tudo que faz emergir a sensibilidade e a vulnerabilidade humanas?

Estou certa que não. Nada é mais gostoso do que poder ouvir as inconfessáveis fraquezas dos nossos companheiros masculinos.
Espero que eles possam compartilhar os seus sentimentos cada vez mais e melhor.

E que aquele caráter mágico, do qual fala Alberto Lima, apareça, permaneça e acompanhe cada homem ao se tornar pai.

Bibliografia:

Lima Filho, Alberto Pereira. Brincadeiras Selvagens: problema nosso: diálogo com pais de adolescentes- São Paulo: Oficina de Textos,1997.

Jung, Carl Gustav. O Desenvolvimento da Personalidade- Petrópolis: Vozes, 1981.(Obras completas de C. G. Jung; v. 17)

[1] Algumas fontes apontam a Suécia como a primeira sociedade que estabeleceu uma licença maternidade mais extensa, e que pode ser utilizada pelo casal, desde 1974. Assim, durante a licença, que parece durar até dois anos, segundo dados de Carlos Aurélio Pimenta Faria, da revista Brasileira de Ciências Sociais, ambos os pais podem se revezar na tarefa de cuidar do filho. De fato, esse sistema é exatamente o que eu considero ideal, já que homem e mulher podem manter a condição de profissionais, ao mesmo tempo em que atuam em parceria no âmbito doméstico.