Respeito à diversidade leva jovens especiais para o mercado de trabalho

A conquista pelo primeiro emprego sempre foi um grande desafio para os profissionais, pois nem todas as empresas estão dispostas a preparar um talento do “ponto zero” e esperar determinado período para que ele comece a dar retorno significativo ao negócio. E a dificuldade parece aumentar quando a pessoa é possui alguma deficiência, seja física ou mental. Mesmo com a sanção da Lei nº 8.213/91, também conhecida Lei de Cotas, que determina que as empresas reservem um percentual para contratar deficientes, na prática, os obstáculos ainda existem porque muitas organizações alegam que esse público específico, geralmente, não possui qualificação adequada para assumir determinadas atividades laborais. Seja por um motivou ou por outro, o problema revela certa fragilidade no cenário corporativo brasileiro que parece estar longe de ser resolvido.

Se por um lado essa situação leva dirigentes corporativos à preocupação, por outro é possível a solução para essa questão esteja bem antes do momento em que a empresa recruta o talento ou que o deficiente procura uma oportunidade no mercado de trabalho. No Colégio Winnicott, em São Paulo, uma sementinha começou a ser lançada e se outras instituições de ensino, particulares ou públicas decidirem seguir a mesma trilha, ótimos frutos poderão ser colhidos. Isso porque desde 1997, o Winnicott tem desenvolvido um trabalho que visa atender às necessidades individuais do aluno, com um olhar direcionado para a trajetória de vida de cada um, incluindo as atividades que eles poderão desenvolver após o término de sua formação acadêmica. E o mercado de trabalho é um desses focos de ação acadêmica.

Segundo Mônica Rodrigues de Sant’Anna, coordenadora pedagógica da instituição de ensino, todo o trabalho desenvolvido pelo colégio é planejado de acordo com as competências e habilidades de cada aluno, inclusive os que possuem necessidades especiais. Cada um desses estudantes possui sua disponibilidade cognitiva e emocional, que será respeitada e, portanto, dependerá do nível de compreensão de cada um. A linha de trabalho adotada para alunos com deficiência, deu-se por causa da preocupação em oferecer recursos que ampliem o conhecimento acadêmico e tenham a oportunidade de vislumbrar novas possibilidades.

“Muitos pais vêm em busca dessa proposta, mas o colégio sempre apresenta todo o trabalho desenvolvido. Nem toda família pretende que seu filho entre no mercado de trabalho. Então, apresentamos outras possibilidades de aprendizagem, através de novos cursos, capacitações profissionais específicas, sempre com a preocupação com a continuidade dos estudos”, esclarece a coordenadora pedagógica, ao acrescentar que toda pessoa portadora de necessidade especial é capaz de acrescentar valor ao mercado de trabalho.

Para ela, antes de qualquer coisa, todos são seres humanos, sociais, relacionais, participantes e que contribuem com o desenvolvimento de atividades, sejam elas relacionadas aos aspectos pessoais ou profissionais. Qualquer pessoa que possui condições de inserção nesse mercado, bem orientada, com um treinamento específico, poderá atuar e agregar não apenas valores, mas resultados positivos. É uma questão de disponibilidade da empresa e do funcionário, além de bom senso, dedicação, persistência e paciência.

Preparação para o mercado – Ao ser indagada sobre como corre o processo de preparação dos alunos portadores de necessidades especiais para o mercado de trabalho, Mônica Rodrigues de Sant’Anna explica que o passo inicial do Colégio Winnicott foi inserir na grade curricular dos alunos do Ensino Médio, a disciplina Orientação Educacional, que apresenta um planejamento amplo, mas orientado, onde o conteúdo está relacionado aos temas transversais como: ética, meio ambiente, pluralidade cultural, trabalho/consumo, saúde, com foco para o cotidiano do aluno, e que também, oferece a possibilidade de construir com eles novos temas de seu interesse, ampliando assim, seu repertório e complementando o que já foi trabalhado.

Outro procedimento adotado foi o de entrar em contato com universidades, institutos e cursos profissionalizantes que pudessem oferecer uma parceria para que os alunos tivessem a oportunidade de conhecer as diversas áreas de estudo, selecionar aquelas que despertaram maior interesse e, a partir disso, aprofundar o conhecimento nas diversas atuações dos profissionais específicos, através de pesquisas, palestras com profissionais atuantes em cada área escolhida, visita às instituições que mantém esses cursos. O contato direto com todo esse leque de possibilidades proporciona que o aluno aprofunde informações, participe de atividades específicas para que, posteriormente, possa escolher aquela profissão que efetivamente irá se dedicar.

Atividades preparatórias – Dentre as atividades desenvolvidas, para que esses jovens portadores de deficiência sejam absorvidos pelo mercado de trabalho, a coordenadora pedagógica cita que tudo começa com orientação na elaboração do currículo, principalmente quando o aluno ainda não desenvolveu qualquer atividade profissional. Também são realizadas dinâmicas que simulem entrevistas de trabalho, há exibição de filmes ou vídeos que apresentem situações cotidianas de atuação profissional para que os estudantes possam lidar com questões, problemas, fatos ou imprevistos de modo a não prejudicar seu desempenho profissional, relacional e emocional, discutindo com os colegas as diversas formas de agir frente a essas situações.

Aceitação do mercado – Quando questionada sobre a forma como ela avalia a aceitação de pessoas portadoras de necessidades especiais no mercado de trabalho, Mônica Rodrigues Sant’Anna diz que isso depende da empresa que realiza a contratação. “Sob meu olhar, ainda há uma leitura distorcida da realidade de muitas pessoas que possuem dificuldades ou déficit intelectual, por exemplo. Sempre trabalhamos com o positivo, ressaltando as competências de cada um. Portanto, primeiramente é necessário conhecer cada indivíduo em sua individualidade, sem comparações, sem pré-conceitos. A partir daí pode-se selecionar atividades possíveis para cada um e sempre com a preocupação em orientar positivamente, dando suporte para que ele possa se desenvolver de maneira cada vez mais autônoma”, defende, ao enfatizar que apesar da sanção da Lei de Cotas muitas organizações ainda sentem dificuldade em absorver esses talentos especiais.

Na visão da coordenadora pedagógica, infelizmente isso acontece porque há falta de conhecimento em relação aos comprometimentos que se apresentam e de como lidar com cada um deles, de forma a contribuir com o desenvolvimento global do profissional e da própria empresa. E é necessário que todos sejam co-construtores da realidade, com disponibilidade e compromisso em relação ao que se propuseram a fazer.

Ex-alunos e atuais profissionais – Para Danillo Nuñez Braga de Faria, 19 anos, portador de Transtorno e Déficit de Atenção e Hiperatividade, a inserção no mercado de trabalho ocorreu por etapas. Ele cursou o 4º ano do Ensino Fundamental no Colégio Winnicott, até que precisou mudar-se para os Estados Unidos com a família. Por causa das dificuldades de aprendizagem, voltou ao Brasil e terminou os estudos, concluindo o Ensino Médio em dezembro de 2012, no próprio Winnicott.

Atualmente, Danillo Faria trabalha em uma empresa como atendente bilíngue e tem planos profissionais bem desafiadores. “Quero trabalhar na área de Tecnologia da Informação. Também planejo estudar futuramente nessa área. Eu sinto dificuldade com cálculos, mas tudo o que você gosta, você faz o máximo para compreender e aprender aquilo. Tive um grande suporte enquanto estudava no Winnicott. Tive muitos problemas quando morei nos Estados Unidos em relação aos estudos, voltei ao Brasil e comecei a estudar novamente no Winnicott e percebo que todo o suporte que está ajudando na minha vida profissional foi graças ao colégio”, comemora.

Ele lembra que quando passou a trabalhar sua rotina mudou completamente e que apesar de ainda sentir muita dificuldade, pois em momentos de muita pressão ele tem o sentimento de que não irá conseguir realizar seus procedimentos ou que fará algo errado, mantém a calma e procura sempre realizar suas atividades corretamente.

Já para Ana Paula Dias Campos Gil Martins, 29 anos, portadora da Síndrome de Down, que cursou e concluiu o Ensino Médio em 2011, também no Colégio Winnicott, a preparação para o mercado de trabalho foi um diferencial significativo na sua vida.

 Ana Paula trabalha há mais de oito anos na Matec Engenharia, atuando como assistente administrativa no departamento fiscal. Destacou-se por ser a representante da empresa para receber o prêmio de melhor empresa para estagiar, em 2008. Ana Paula afirma que não sentiu dificuldades para se adaptar ao trabalho, porque fui muito bem aceita por todos os colegas de trabalho, inclusive o próprio presidente da companhia.

Depois de ingressar na organização, ela reconhece que se sente mais responsável, sensata, tolerante, madura, muito mais feliz e realizada. “Agora quero crescer e ser reconhecida pelo trabalho que faço e um dia trabalhar no setor de recursos humanos”, confessa.

18/11/2013 – Fonte: http://www.rh.com.br/Portal/Responsabilidade_Social/Materia/8906/respeito-a-diversidade.html