Brincadeira NADA inocente
Texto Marcelo Ricciardi | Design Juliana Moreno

Não se deve subestimar os efeitos negativos do bullying sobre as crianças.
Um adulto que se deixa dominar por suas preocupações está sujeito a sofrer de sintomas relacionados com a ansiedade. E no caso de uma criança, cujas responsabilidades para com a vida são bem menores?
Infelizmente, os pequenos também podem ser vítimas da ansiedade. Por mais que sejam menores as pressões do cotidiano infantil, a personalidade em formação ainda não aprendeu a lidar com certos medos, que os adultos tendem a subestimar. O cenário fica mais delicado em casos de bullying, palavra de origem inglesa derivada de bully, que significa agredir ou intimidar.
O termo é usado para nomear atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, por parte de um só indivíduo ou grupo, a que uma criança pode ser submetida.

Atenção aos sinais
Os sintomas de ansiedade infantil são mais difíceis de serem percebidos, uma vez que a criança não entende o que se passa ou não é capaz de expressar de forma clara sua angústia.
São comuns choro sem motivo aparente, náuseas, tremores, palidez e alterações no sono. Medo do escuro ou de ficar longe dos pais é um comportamento até encarado como normal, mas não quando a reação a ele é digna de pânico. De forma não rara, os pequenos voltam a ter atitudes que já haviam superado, como fazer xixi nas calças. O isolamento diante de adultos ou mesmo outras crianças também é um indício de que é preciso oferecer ajuda.
Episódios naturalmente traumáticos como uma morte em família ou a separação dos pais podem abrir caminho para que a ansiedade se instale. O mesmo se dá com o bullying, que não envolve apenas agressões físicas, mas também ofensas verbais (no caso da criança ser obesa ou apresentar dificuldades com a fala, por exemplo). “Sentir-se integrada com seu grupo é bastante importante para o desenvolvimento global de uma criança. Quando esta sofre bullying, fica excluída do seu grupo, sentindo-se depreciada. Esse sentimento é gerador de ansiedade, de tristeza e de sensação de menos valia”, descreve a psicopedagoga Elizabeth Polity.

Aprendizado prejudicado
Uma vez que a escola é onde a criança costuma passar a maior parte do tempo quando está fora de casa, é natural que este seja o ambiente mais comum para os casos de bullying.
Vale lembrar que o bullying — mesmo fora dali — pode prejudicar significativamente a assimilação do conteúdo passado em sala de aula, o que trará implicações futuras. O medo de ser a próxima vítima faz com que as outras crianças ao redor adotem uma postura passiva, o que torna mais difícil para professores, diretores e demais adultos da escola perceberem o que acontece.
Por isso mesmo, tanto a família como a instituição precisam estar alertas e trabalharem juntas para uma solução: “A família e a escola devem ouvir com muita atenção as queixas da criança ou do jovem e buscar verificar o que está acontecendo. Não minimizar o sofrimento nem considerar que ‘é coisa de criança’. Brincadeira acontece quando todos os envolvidos estão de acordo e aproveitando o momento. Se um está sofrendo, deixou de ser brincadeira e se tornou agressão”, alerta Elizabeth.

Sem proteger demais
É impossível manter qualquer criança completamente imune a algum tipo de agressão por parte dos coleguinhas. A superproteção, por outro lado, será prejudicial da mesma forma. “Não a poupe em demasia. A criança que é muito protegida não desenvolve imunidade ao estresse e à ansiedade. O estresse deve ser proporcional à idade e ao amadurecimento da criança”, explica a psicóloga Aretusa Baechtold.
O bullying vai além de eventuais atritos por ser praticado continuamente, deixando cicatrizes tanto fisicamente quanto emocionalmente, o que acarreta em uma ansiedade presente no dia a dia.
O diálogo é a melhor ferramenta para superar tudo: “Se possível, diminua a pressão que ele está sofrendo. Ensinar a criança a identificar as emoções e expressar o que sente, criando um ambiente acolhedor e de compreensão dessas emoções é importante”, completa Aretusa.
Impor à criança inúmeras atividades além do que ela é capaz de lidar — assim como exigir desempenho impecável em todas elas — é um comportamento em que os próprios pais acabam atuando negativamente na construção da autoestima infantil.

Consultoria: Elizabeth Polity, psicopedagoga e diretora do Colégio Winnicott, em São Paulo (SP); Aretusa Baechtold, psicóloga do Instituto Psicológico de Controle do Stress (IPCS), de Campinas (SP).

Fonte: Revista Vença a Ansiedade – 3ª Edição, setembro de 2014