|
Com vistas a re-significar as narrativas criadas em torno da criança com dificuldade de aprendizagem, criou-se na Instituição, a "Escola de Pais".Essa iniciativa visa favorecer um espaço de encontro e reflexão para que as famílias possam trocar experiências e se ajudar mutuamente. Ela reúne pais e terapeutas familiares, com o propósito de favorecer a compreensão do processo, permitindo que se construa narrativas mais úteis sobre o problema que define o sistema.
As reuniões têm o objetivo de gerar um contexto de acolhimento, que favoreça a quebra de resistência e permita que cada membro da família se expresse de maneira a buscar alívio e conforto, trabalhando o sentimento de solidão e isolamento tão presentes neste grupo.
São comuns, no início, os sentimentos de rejeição, raiva, culpa e projeções de responsabilidade no cônjuge ou em outro membro da família. Percebe-se nesta etapa, muitos comportamentos familiares que lembram o comportamento da criança autista - distúrbio de contato afetivo, resistência à mudança, tendência ao isolamento - daí minha questão inicial: criança autista, família autista?
Com o passar do tempo, começa-se a perceber uma maior aceitação da realidade, uma mudança que se poderia caracterizar como mudança de segunda ordem , pois envolve uma mudança nas crenças que embasam os comportamentos e a maneira de se posicionar frente ao problema e, principalmente, o aparecimento de expectativas mais positivas em relação ao futuro.
O grupo valoriza múltiplas vozes, preservando espaço e tempo necessários para cada um se fazer escutar. Respeitam-se as diferenças, privilegiando a multivisão como melhor caminho para se chegar ao clareamento das emoções e dos sentimentos presentes nesse processo.
Algumas técnicas são propostas pelos terapeutas, vistas como facilitadoras do trabalho. Dentre elas, pode-se citar a construção do "Boneco Sistêmico" e o "Desenho Grupal", inspirado na técnica de rabisco de D. Winnicott (1967).Após os trabalhos, acontece um momento de reflexão, onde se propõe resgatar os fios que tecem a trama e assim permitir uma visão mais ampliada do processo. É importante ressaltar que nessa proposta existe espaço para se re-contar as histórias familiares de dor e sofrimento, mas também de sucessos e competências, que permitem crescer e agregar. Procuram-se maneiras diferentes de resolver antigos problemas, buscando matáforas que possam ser organizadoras dessa tarefa complexa que é aceitar as diferenças. Ao avaliarmos como a família constrói sua narrativa em torno do sintoma, podemos observar sua dinâmica relacional, como o grupo se estrutura num momento de stress e, sobretudo, como se pode auxiliá-los a flexibilizar o sistema e permitir o movimento do Ciclo Vital.Como um sistema, a família supõe um movimento constante; quando este cessa e começa a haver um padrão rígido, com papéis e expectativas pré-determinados, a situação torna-se patológica. Andolfi e colaboradores (1989) observam que, neste caso, as relações tornam-se estéreis, não permitindo o desenvolvimento e a diferenciação de cada membro. Procurar compreender o sintoma é explicitar os significados que ele tem para a família e, mais ainda, buscar as relações vinculares, os mitos, segredos e lealdades que muitas vezes estão engajados no processo, dando-lhe sustentação. Nestes encontros pode-se observar alguns aspectos importantes da dinâmica familiar: estrutura, possibilidade de diferenciação e formação de identidade, adaptação ao ciclo vital, lealdades, alianças e coalizões, padrões de repetição, padrão de aprendizagem, manejo dos segredos e mitos familiares. Esses componentes dão sustentação para a construção das narrativas familiares, uma vez que fazem parte da trama que define cada grupo familiar, dentro de suas particularidades. Inclusive, a maneira como lidam com o que foi definido como problema e que recursos podem ser disponibilizados para o atendimento do sujeito/família do autista. Ao portador do sintoma, ou Paciente Identificado - no caso a criança autista - muitas vezes cabe a função de carregar o peso da história do grupo, função difícil, que ele pode não conseguir realizar. Daí a importância de se olhar para o "lugar" que as narrativas do grupo familiar designam para este membro, ao mesmo tempo em que se observam os "lugares" dos outros membros e destes em relação ao contexto social mais amplo . Esse trabalho tem como objetivo principal reconhecer a necessidade e promover o atendimento das famílias com um membro autista, de forma a favorecer que o funcionamento do sistema saia do seu isolamento e busque criar situações de troca com meio, tão importantes para a evolução do grupo. À medida que eles vêem a si e a seus filhos de maneira diferente, criam alternativas de soluções originais para problemas crônicos. Famílias e terapeutas buscam uma criação conjunta a partir de novos significados para as historias trazidas pela grupo. Conversando ou contando essas histórias surgem novas idéias para ações, sendo portanto um diálogo emancipatório. Desta forma, penso que as famílias de crianças autistas podem "se ver" num lugar diferente: naquele onde se privilegia o cuidado com a relação e se favorece a autoria dos sujeitos envolvidos. Sair do isomorfismo é propiciar novas maneiras de se relacionar com mundo, que em muito contribui para o crescimento e desenvolvimento de todos os envolvidos. Encerro esse artigo com uma afirmação do Dr. Bernard Rimland, sobre o sujeito autista, que mostra a importância do contexto que define o problema: "Se eles parecem recuperados, se agem como recuperados, e se são vistos como recuperados, então eles estão recuperados". Elizabeth Polity Referências Bibliográficas:
|
|
|
|||||||||||||||||||||